ENTREVISTA – Quando o assunto é conectividade, a meta é “que todos possam usar de todas as tecnologias disponíveis no mercado”, garante Gregory Riordan

Durante a Agrishow 2019, conectividade foi tema presente em praticamente todos os estandes. Muitas empresas lançaram soluções para conectar, de conexão ou com conectividade. Entre as iniciativas que se destacam pela tendência à universalização do processo e dos atores está a ConectarAgro, que resulta da cooperação entre oito empresas: AGCO, Climate FieldView, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble e tem como meta estabelecer um ecossistema favorável de acesso à internet móvel nas mais diversas regiões agrícolas brasileiras, com adoção de soluções abertas, inicialmente com a utilização da rede 4G na faixa de 700MHz, tecnologia global que permite a cobertura mais eficiente no campo.

O ConectarAgro promoverá não apenas a conexão de máquinas, mas também a de pessoas, permitindo por meio desta flexibilidade um maior aproveitamento da solução. Adicionalmente, por seguir um conceito aberto de padrão global, a solução promovida oferecerá ainda mais benefícios em relação às demais soluções tecnológicas disponibilizadas no mercado, que seguem conceitos fechados, que limitam seu uso e geram insegurança de investimento por parte de agricultor, dificultando sua adoção em larga escala.

Com a solução promovida, independente do segmento em que atua, o produtor rural poderá usufruir, de forma completa, dos recursos disponíveis hoje de agricultura de precisão, digital e automação, além de ter acesso a uma infinidade de novos produtos e serviços habilitados com a disponibilidade da conectividade. Dessa forma, o ConectarAGRO, promovendo a conectividade no campo, será fundamental para otimização das máquinas e da lavoura, contribuindo para que o agronegócio brasileiro dê um novo salto de produtividade e aumente ainda mais a sua competitividade no cenário internacional.

Entre os idealizadores dessa solução está Gregory Riordan, diretor de Tecnologias Digitais da CNH Industrial para América do Sul, que agrega vasto conhecimento em produtos tecnológicos para máquinas agrícolas e construção, com foco em agricultura de precisão. Nesta entrevista, ele discorre sobre a evolução da aplicação da conectividade em máquinas e implementos agrícolas, fala sobre o papel da CNH Industrial no projeto e apresenta ganhos da conectividade na gestão e no aumento da produtividade nas propriedades agrícolas.

Confira!

Como vem evoluindo a tecnologia no setor de máquinas e implementos agrícolas e qual a contribuição da conectividade nesse cenário? 

Com a aceleração da agricultura de precisão a partir de 2001, impulsionada pela disponibilização do sinal GPS de maior precisão e sem erro, houve um avanço muito rápido das tecnologias de sensoriamento e automação das máquinas. Hoje, muitas das tecnologias que, àquele época, eram acessórios caros – como mapeamento de produtividade e piloto automático –, são tecnologias que saem de fábrica em praticamente todos os produtos de alta gama (flagship). Neste cenário, temos um grande número de informações que podem ser utilizadas para entender melhor o processo realizado pelas máquinas, bem como oferecer dados para melhorar sua eficiência. A conectividade permite que os problemas sejam identificados em uma fase muito prematura ou mesmo antes de terem um impacto no trabalho que será executado. Desta forma, a conectividade oferece maior segurança e velocidade.

Como essa contribuição é medida? Explique

A contribuição da conectividade é medida através do resultado estimado proporcionado por uma série de ferramentas, mais conhecidas como telemetria, rastreabilidade, planejamento logístico e ferramentas de suporte, que permitem diagnóstico e soluções remotas de problemas, contribuindo para esta equação e pesando em fatores como redução de tempo parado, eficiência logística, eficiência operacional e de consumo que todos contribuem para redução de custos ou aumento de produtividade. Recentemente, estudo a pedido do governo avaliou que a conectividade no campo – bem como as tecnologias associadas, também conhecidas como IoT (Internet das coisas) – poderia proporcionar ganho de R$ 21 bilhões em 2025. O resultado foi tão significante, que essa análise, assim como outros fatores relevantes, levaram à inclusão do agronegócio no plano de IOT do Brasil, em conjunto com Cidades e Saúde.

A conectividade no campo ainda é um gargalo, principalmente quando se trata de pequenas e médias propriedades. Como estão sendo resolvidos os gargalos por falta de internet nesses locais? 

A conectividade ainda é um grande problema não apenas nas zonas rurais, mas também nas zonas urbanas e nas estradas. Parte do problema é que ainda existe significativa parcela dos municípios brasileiros não atendidos por fibra óptica, que, de certa forma, é a infraestrutura básica para depois se chegar à conectividade no campo. Existem outras formas de acesso, como via satélite, mas que de forma geral trazem custo maior e menor capacidade de transmissão. O segundo ponto é que a quantidade de usuários – ou seja, a demanda – sempre foi concentrada nos grandes centros urbanos. Desta forma, até o momento, a conectividade para zonas rurais dependia do investimento e da instalação de infraestrutura própria na fazenda para resolver este problema. Entretanto, os custos associados não apenas ao investimento inicial, mas à operação e à manutenção desta infraestrutura, limitavam esta alternativa apenas a grandes produtores ou empresas agrícolas que poderiam realizar o investimento e suportar a operação.

No caso da não existência de conectividade na propriedade agrícola, como os dados coletados pelas máquinas e implementos agrícolas podem gerar benefícios para o agricultor?

O grande benefício de se ter conectividade no campo é a possibilidade de monitorar as atividades em tempo real, e consequentemente, ter a possibilidade de intervir de imediato quando alguma operação não estiver sendo realizada dentro do esperado. Por exemplo, quando uma operação de plantio está sendo realizada com velocidade acima do ideal. Quando não se tem essa conectividade, o produtor só consegue avaliar a qualidade da operação após ela ter sido finalizada, e os dados terem sido removidos do display da máquina através de um pen drive. Ou seja, quando não se tem conectividade, os dados que estão disponíveis na máquina continuam tendo grande valor e permitem a redução de custos ao cliente por meio das melhorias de operação e controles das máquinas e implementos, mas sempre olhando os dados passados para melhorar as operações futuras. Quando se tem conectividade, é possível monitorar, melhorar e corrigir as operações agrícolas em tempo real.

Como os dados coletados pelas máquinas e implementos e repassados são convertidos em benefícios para os agricultores e como contribuem para a evolução tecnológica do setor?

Os dados são coletados a partir da rede de comunicação que existe na máquina (rede CAN), ou por sensores específicos instalados e também pelos monitores que estão disponíveis dentro destas. Esses dados são normalmente enviados para uma plataforma online, sendo, então, traduzidos e convertidos para uma linguagem intuitiva para o cliente, que pode acessar estes dados através do seu computador, smartphone ou tablet. Vale ressaltar também que o cliente pode configurar uma série de alarmes referentes a suas operações. Dessa forma, a própria plataforma irá avisar ao cliente quando algum alerta for acionado. Além da possibilidade de monitorar as operações agrícolas em tempo real, no longo prazo, a conectividade irá permitir a criação de novas ferramentas, que irão contribuir muito para o aumento da produtividade operacional das máquinas no campo. Um bom exemplo é a possibilidade de uso do Big Data para a predição de falhas. Fazendo uma analogia simples, quando uma pessoa fica gripada, ela começa a apresentar sintomas como febre, coriza, entre outros, que depois desencadeiam na gripe. Assim, uma máquina quando falha em campo, também apresenta alguns sintomas prévios, que as vezes não são perceptíveis para o operador, porém, com o uso do Big Data, será possível avaliar estes “comportamentos” que se antecipam à falha, e realizar uma ação preventiva, antes que a máquina falhe, consequentemente aumentando a disponibilidade da máquina no campo.  Outro bom exemplo de uso da conectividade a longo prazo é referente as máquinas autônomas, que somente serão viáveis, se houver conectividade.

Especificamente no caso da CNH Industrial, como ela está contribuindo para resolver o problema de conectividade e garantir que o agricultor consiga usufruir dos seus benefícios?

Graças à profissionalização do campo, ao avanço das máquinas e à tecnologia, a agricultura brasileira teve um enorme incremento nos últimos 20 anos, colocando o País como uma das maiores potências globais do setor. Para dar o próximo salto de produtividade, o Brasil precisa investir para que todas as lavouras tenham conectividade. Com esse objetivo, a CNH Industrial, em parceria com outras sete empresas, desenvolveu o ConectarAgro, iniciativa que visa contribuir para consolidar e expandir o acesso à internet nas mais diversas regiões agrícolas brasileiras, dando direção e segurança para que os agricultores possam adotar tecnologias onde a conectividade é necessária. Com ela, o produtor rural poderá usufruir, de forma completa, dos recursos tecnológicos existentes hoje de agricultura de precisão, digital e automação, além de ter acesso a uma infinidade de novos produtos e serviços habilitados com a existência da conectividade. Podendo, assim, otimizar o seu negócio. Além das máquinas agrícolas da Case IH e da New Holland Agriculture, equipamentos de construção da CASE Construction Equipment e da New Holland Contruction, além dos veículos comerciais da Iveco se beneficiarão diretamente da iniciativa. O ConectarAgro é inovação aberta, permite mais liberdade e flexibilidade ao agricultor, o usuário dessas tecnologias. Esse conceito é o grande diferencial do ConectarAgro em relação a outras soluções tecnológicas disponíveis no mercado, que atualmente são fechadas e limitadas, dificultando sua adoção em larga escala. A ConectarAgro é a primeira que permite que todos possam usar de todas as tecnologias disponíveis no mercado.

Como vem sendo feito o investimento para a concretização do ConectarAgro por parte das empresas?

O principal investimento tem sido o capital intelectual disponibilizado pelas empresas, para tratar de forma efetiva e com excelência técnica a questão da conectividade rural. O tempo gasto por profissionais qualificados representa o maior investimento das empresas até o momento, considerando que a iniciativa tem por objeto reunir as expertises e as experiências dos participantes para criar um ecossistema favorável e melhorar ou desenvolver as condições para a conectividade no campo.  A diversidade, a competência e o interesse comum das empresas envolvidas nessa inciativa inédita de combinação de esforços criam um ambiente para melhor entender o problema de conectividade no campo brasileiro, por seus diversos ângulos, gerando uma estratégia efetiva para solucioná-lo, beneficiando o agronegócio nacional. Cada empresa que integra essa iniciativa contribuirá com suas experiências de mercado para ajudar a criar um ecossistema favorável e melhorar ou desenvolver as condições para a conectividade no campo no âmbito do ConectarAgro, mas não haverá desenvolvimento, produção ou comercialização conjunta de equipamentos, produtos ou serviços no mercado pelas empresas, que continuarão a atuar forma independente, sem qualquer combinação de atividades econômicas e sem o compartilhamento de riscos e resultados. A estrutura para a implementação dessa iniciativa está sendo definida baseada em todas as práticas e necessidades legais vigentes no Brasil. O sistema viabilizará além das máquinas novas, a conexão de toda a frota da fazenda reunindo os equipamentos, pessoas e outros dispositivos abaixo de um sistema único. Dessa forma, o ConectarAgro será peça importante para o agronegócio brasileiro aumentar ainda mais a sua produtividade e competitividade no cenário internacional. E o produtor rural poderá usufruir, de forma completa, dos recursos disponíveis hoje de agricultura de precisão, digital e automação, além de ter acesso a uma infinidade de novos produtos e serviços habilitados com a existência da conectividade, podendo, assim, otimizar o seu negócio. Dessa forma, o ConectarAgro será peça importante para o agronegócio brasileiro aumentar ainda mais a sua competitividade no cenário internacional.

Qual a contribuição do setor fabricante de máquinas e implementos agrícolas para o aumento da produtividade da lavoura?

Os fabricantes de máquinas e implementos têm um papel importante no auxílio do aumento da produtividade no campo, pois constantemente estão lançando e disponibilizando tecnologias que permitem gestão e interação com a operação. Um bom exemplo são os controladores de plantio, que atualmente já permitem o monitoramento e controle das plantadeiras linha por linha. Tecnologia semelhante também já está disponível para os pulverizadores, em que é possível realizar o controle de vazão bico a bico.  Novas parcerias como a recém-lançada entre CNH Industrial e Farmers Edge também estão levando aos clientes acesso a serviços agronômicos, meteorologia e imagens de satélite. Ou seja, os fabricantes de máquinas e implementos estão buscando cada vez mais fornecer aos clientes um melhor monitoramento e controle das atividades agrícolas aos produtores.

Como esses resultados podem ser potencializados? 

Proporcionar soluções de conectividade diversas e fomentar o acesso à tecnologia a clientes de todos os portes será de essencial importância para potencializar os resultados e aumentar a produtividade das commodities agrícolas no Brasil. Alinhado com a disponibilização das tecnologias também é fundamental o treinamento adequado em todos os elos da cadeia para que seu uso seja adequado e seu suporte rápido e eficiente. Um exemplo, que tem otimizado o uso para os produtos comercializados pelas marcas da CNH Industrial, é o suporte telefônico gratuito disponível de fábrica para todos os produtos de Agricultura de Precisão. Através de um laboratório interativo, os agentes especialistas conseguem simular as situações de campo durante o atendimento e seguir um passo a passo para resolver dúvidas e dificuldades de operação, garantindo assim disponibilidade e eficiência do uso das tecnologias.

Em que culturas os resultados são mais perceptíveis?

Os resultados são perceptíveis em todas as culturas, porém em commodities como soja, milho, algodão, cana e laranja existe maior histórico e comprovação do resultados, inclusive devido à extensão das áreas plantadas. Muitas vezes o resultado também está bastante relacionado com o nível de tecnologia anterior que estava sendo utilizada e a que foi introduzida. Em muitos casos, na introdução de tecnologias de telemetria, também se percebe melhoria imediata da operação apenas pelo efeito de o operador estar sendo monitorado e, por isso, já corrigir os vícios e ineficiências mais óbvias de operação.

Há uma tendência para o futuro de uso de equipamentos autônomos. Como estão evoluindo esses desenvolvimentos? A falta de conectividade pode ser um retardador do processo?

A CNH Industrial tem se tornado referência a partir dos tratores autônomos, conceito apresentado globalmente e que participou da Agrishow 2017. O objetivo era gerar massa crítica maior sobre esse tema e suportar nossa área de pesquisa e desenvolvimento na evolução deste conceito, bem como nas provas de conceito, que estão em avaliação, e serão base para novas introduções que levarão para uma autonomia cada vez maior. A conectividade é crítica para esta evolução, principalmente quando se fala em equipamentos com pouca ou nenhuma supervisão. O ConectarAgro, por exemplo, já avalia tecnologias que podem suportar a capacidade e a velocidade necessárias para essas aplicações.

O que vem sendo feito para que a tecnologia aplicada às máquinas e aos implementos agrícolas cheguem aos pequenos e médios produtores?

O propósito inicial do ConectarAgro é atender toda a área agrícola do território nacional, com padrão tecnológico global e aberto. A implantação e a adoção da iniciativa será gradativa, mas visa a atender todos os diferentes ambientes do agronegócio brasileiro, pois objetiva promover a conectividade para toda a comunidade agrícola, grandes, médios e pequenos agricultores, incluindo os da Agricultura Familiar. Um dos grandes desafios é encontrar a forma de viabilizar a conectividade para todos, pois deve ser reforçada, sempre, a grande relevância dos pequenos produtores na produção agrícola brasileira. Este desafio já faz parte dos objetivos da parceria que pretende alcançar uma cobertura total de 5 milhões de hectares em 2019 dos quais 20% (1 milhão de hectares) serão em produtores de pequeno e médio portes. Entre as alternativas em avaliação para acelerar este crescimento estão parcerias com cooperativas agrícolas e associação de produtores.

Que outras características do ConectarAgro merecem ser ressaltadas?

O ConectarAgro surgiu a partir de um problema enfrentado pelo agricultor e empresas do setor, que é a falta de rede e internet no campo. O objetivo da iniciativa é acompanhar constantemente as alternativas tecnológicas através do seu grupo de discussão técnica para avaliar as alternativas para cobrir áreas rurais ou remotas nas diversas situações de cultura e relevo e com a melhor eficiência possível. A premissa é trabalhar com tecnologias abertas e de padrão global. Desta forma já se definiu a opção de 4G LTE 700MHz, que cobre grandes áreas com menor infraestrutura, como a tecnologia que será promovida pela iniciativa já no seu início. O princípio da iniciativa de adoção de soluções tecnológicas abertas e de padrão mundial tem o propósito de expansão. Contudo, o foco inicial é tratar o problema de conectividade rural no Brasil. Eventual solução adotada, sendo pública e de padrão global, permitirá a conexão de todos os dispositivos compatíveis, incluindo caminhões, automóveis, drones, sensores. Ou seja, qualquer máquina poderá se conectar a um padrão global de conectividade. Para isso, basta que a máquina tenha recursos de conectividade implementado e seguirá o mesmo princípio da digitalização do sinal de TV, onde televisores analógicos se conectaram ao novo sistema via conversores. Todas as empresas que quiserem participar ou contribuir para iniciativa serão bem-vindas.

Retirado de Gestagro360